somos culpados !

três imagens chocantes que teimam em não me sair da cabeça …

três situações que me corroem a alma, talvez porque eu nada fiz para as mudar e preferi fingir que não estava a ver, fingir que não era meu problema.

três situações que se passaram neste País que me fazem esquecer todos as outras que eu possa ter presenciado.

três situações que não consigo esquecer.

a primeira : já foi há uns anos,  dois dias ou três antes do Natal, um homem que aparentava ter 60/ 70 anos, a face enrugada com as marcas de sofrimento, estava  de joelhos perto de uma das pontes que atravessam esta cidade, encostado a uma bengala, ligeiramente inclinado e com as mãos postas…tinha uma chapéu no chão e pedia esmola…o frio que se fazia sentir era de temperaturas negativas, eu passei, centenas passaram diante dele… eu senti compaixão… a imagem não a esqueço, o olhar, a posição, a energia que transmitia era tão forte… mas não parei, não ajudei e segui a minha vida …

a segunda : indignou-me e quando a conto há sorrisos e piadas por ser tão insólita.

era verão, eu estava dentro do carro parado num sinal vermelho em frente a um parque publico, onde há dezenas de pessoas a passear e a jogar xadrez e damas ( os tabuleiros são desenhados no chão e as peças devem ter 50cm de altura). quando olhei para o lado vejo uma mulher anã, completamente nua, a correr atrás de um homem de meia idade, magro e já com muitos cabelos brancos… ele andava em passo rápido com as mãos nos bolsos e ia-se encolhendo com os pontapés e socos que a mulher anã lhe dava, a certa altura, ela, ao passar pelo meio dos tabuleiros, começou a lançar-lhe as peças , ele não corria, não olhava, não se manifestava, apenas andava em passo acelerado. ela, completamente nua, saltava, batia-lhe atirava-lhe as peças de xadrez  que eram do tamanho dela, não sei o que dizia porque estava  longe, eu apenas observava esta cena sem acreditar…. ninguém, ninguém das dezenas de pessoas que estavam no parque a jogar se mexeu, se preocupou, ou teve alguma reacção…não sei como acabou , o sinal passou a verde e tive de seguir o meu caminho, mas com toda a certeza se estivesse no parque também nada tinha feito….

a terceira : e foi a ultima, entro no tram e um cheiro nauseabundo pairava no ar, nunca tinha tido contacto com uma coisa assim, começo a ver as pessoas a movimentarem-se e a ficar uma área completamente vazia, no meio deles vinha um senhor, era pedinte, cabelos grisalhos, olhos azuis, pele morena, cara enrugada e tão mas tão sujo, dei-lhe passagem olhou-me com um olhar doce e brilhante, sorriu e agradeceu, e eu sorri-lhe também e tentei esconder o vómito… ele saiu e tentamos todos sair daquele espaço, o fim da carruagem ficou super lotado, eu tive de sair na paragem seguinte, não se aguentava o cheiro. mas a compaixão que senti também me consumia, como era possível, ele naquele estado e ainda ter um olhar que não esqueço, assustado e doce ao mesmo tempo,e ter-me agradecido por lhe ter dado passagem …

(nota 1 : a água aqui é gratuita, normalmente são raros os maus odores nos transportes públicos

nota 2 : já me tornei a cruzar com este senhor e já alguém se tinha ocupado dele, o cheiro já não se fazia sentir )

são histórias de vida que não são nossas, mas que nos dizem respeito. ignoramos, fingimos não ver mas elas existem por culpa nossa, porque nos calamos porque somos egoístas, e temos medo , muito medo !

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